9 de dez de 2012

CÂNCER DE MAMA - CAPÍTULO 4 - O EFEITO SOMBRA

Meus pais Cláudio e Zezinha

O EFEITO SOMBRA

As lembranças que tenho dos meus pais revelam a presença da "Luz" e da "Sombra" que existe em todos nós...

Sou de origem portuguesa e espanhola por parte de mãe e italiana por parte de pai.

Cresci ouvindo meu pai cantar lindas canções de amor em italiano para minha mãe e para mim.

A irmã do meu pai era cantora lírica do Teatro Municipal de São Paulo e eu fui acostumada a ouvir muita ópera pelo rádio quando pequena e depois de adulta em casa e no teatro.

Já o sonho da minha mãe era ser bailarina clássica.


Ela contava sempre a emoção que sentiu quando ganhou de presente o seu primeiro sapatinho de balé.

Porém, nunca conseguiu fazer o curso tão sonhado, por circunstâncias da vida, mas tinha um estilo próprio
de dançar...um estilo livre, cheio de criatividade, com influência na dança flamenca.

Quando solteira, nas festas na casa do meu pai, sempre pediam para ela dançar e até arriscava alguns passos de dança-do-ventre.

Esse ambiente musical influenciou minha personalidade e aos 13 anos participei de um concurso, na cidade de Leme, e ganhei em 1.o lugar como "A melhor voz de Leme 1966".


Depois, mudei disso mudei para a cidade de Americana e fui membro da Igreja Presbiteriana, onde cantei por 6 anos no coral da igreja como 1.o soprano.

Anos depois, já casada e morando em Santo André, ganhei outro concurso de música, cantando uma canção que meu marido fez para a minha primeira filha Joana.

O que quero deixar bem claro aqui é que tive muitos momentos de alegria e amor na convivência com meus pais.

Porém, como dentro de todos nós existe uma personalidade dual, também sofri os traumas causados pelo "lado sombra" de ambos e criei um próprio "lado sombra" dentro de mim.

Para mim não é fácil falar sobre isso...

Faz todas aquelas emoções de medo e raiva que senti, aflorarem novamente na minha mente e no meu coração, em forma de lágrimas.

Eles se amavam muito e foi amor à primeira vista.

Namoraram 7 anos e minha mãe contava que até fizeram um pacto de sangue, jurando eterno amor.

Mas, como acontece com todo mundo, quando a nossa "Sombra" (emoções como raiva...medo...etc...) toma força a nossa "Luz" (sentimentos como amor...perdão...compaixão...) enfraquece...

E era exatamente isso que acontecia com meu pai.

Além de ser viciado em jogo (cartas e corridas de cavalos) o consumo de álcool agravava ainda mais a situação e quando ele chegava em casa, depois de ter perdido todo o seu dinheiro, começavam as brigas que sempre acabam com meu pai agredindo minha mãe fisicamente.

Eu assisti todas...

Isso deixou marcas profundas na minha alma, porque por mais que eu amava meu pai e sabia que ele me amava e que aquela agressão era somente  contra a minha mãe, o que os meus olhos viram jamais foram apagados da minha memória.

As vezes  ele batia tanto nela que ela ficava desfigurada...

Outras vezes,  quando eu voltava da escola, de longe ouvia os gritos da minha mãe e já imaginava ele batendo nela...o coração disparava e eu tremia....e quando entrava em casa, via que ele nem estava lá...

Puro trauma de uma criança que via a violência contra a sua mãe e era impotente para mudar essa situação.

Isso criou o meu próprio "lado sombra" quando não pude reconhecer, dentro de mim, o medo e a raiva que sentia.

Esse medo que me bloqueou em muitas situações na vida e essa raiva que se transformou numa energia auto-destrutiva que ficou latente por muitos anos dentro de mim.

Quando o meu pai perdia todo o dinheiro no jogo e não tinha coragem de voltar para casa, a gente ficava meses sem saber onde ele estava e numa ocasião, minha mãe foi obrigada a deixar cada filho com uma tia para poder trabalhar numa outra cidade, onde meus avós foram morar.

Sei que isso não afetou só a mim, mas meus irmãos também.

A última vez que isso aconteceu, minha mãe tinha mais de 60 anos e tinha acabado de ganhar de presente da minha tia, uma viagem para Caldas Novas em sua companhia.

Ela estava muito feliz porque seria a primeira vez que iria se hospedar num hotel.

Mas...uma semana antes o meu pai "sumiu" e a viagem não se concretizou e ficamos meses sem saber onde ele estava.

Logo depois disso, minha mãe pegou uma pneumonia (que na metafísica está relacionada com tristeza) e por causa da baixa no sistema imunológico...meses mais tarde...foi diagnosticada com câncer linfático.

Nessa época ela morava em Praia Grande e teve de se mudar para a casa da minha irmã em Santo André para fazer uma cirurgia de retirada de um nódulo no timo e fazer o tratamento de químioterapia, mas depois de 3 anos, surgiu um tumor no cérebro  que foi tratado com radioterapia.

Dava dó de ver aquela mulher que adorava dançar, falar, fazer crochê e palavras cruzadas, balbuciando palavras incompreensíveis, sem ao menos conseguir se comunicar pela escrita.

E aos 66 anos, depois de ter feito todo o tratamento direitinho, ela faleceu.

Eu sempre falei que ela não morreu por causa do câncer, mas das sequelas do tratamento e que o que desencadeou a sua doença foi o trauma do último abandono do meu pai e ver o seu sonho desfeito.

E esse foi o motivo pelo qual eu preferi optar por outras terapias, quando tive o diagnóstico de câncer de mama, as quais descreverei em outro post.

O que eu não podia imaginar, era que um terremoto estava se formando lentamente e eu teria de enfrentar um tsunami que viria me atingir em cheio, destruindo tudo o que consegui construir de mais positivo na minha vida, apagando minha "Luz" e abrindo a "Caixa de Pandora" onde eu havia escondido minha "Sombra" que eu tanto tentava negar.

Ah! Tenho de deixar registrado aqui  a última lembrança que tenho dos meus pais, gravada eternamente na minha memória:

A última vez que vi os dois juntos, ela já estava com a doença bem avançada e ele estava levando-a pela cintura, do banheiro para o quarto, para deitá-la na cama e eu seguia atrás deles.

Ouvi quando ele falou: Me perdoa, Maria!

Ao que ela respondeu: Eu não tenho "nada" para perdoar...

Ai a "Luz" se fez e o AMOR VENCEU !


Aos meus pais eu dedico agora meu pedido de Perdão do Ho'oponopono

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4 comentários:

  1. pratique a compaixão, o perdão por tudo e por todos, e voce será curada para sempre....

    marco

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  2. Acho que o importante é não se culpar por ter esse lado sombra, porque ele é natural, faz parte do ser humano. Todo mundo sempre vai ter um problema delicado que vai levar muuuuuuuito tempo pra resolver, acho que não tem como escapar, faz parte da vida, da nossa evolução. O lance é saber conviver com os dois lados.
    =*

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  3. Muito difícil a sua história ... mas saiba que tudo contribuiu para a base que você possui hoje.
    Perdoar não é tão fácil assim, é um processo interior.
    Não temos como "deletar " da nossa memória o sofrimento vivido, mas temos como canalizar de forma positiva para nós e para todos que nos cerca.
    As experiências difíceis nos molda e prepara para a vida, e tbm para entender melhor o outro.

    "Se eu não posso mudar um acontecimento, se não posso mudar a vida,então que ela me modifique." Pe. Fábio de Melo

    Elaine

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    1. Gostei muito das palavras do Pe. Fábio de Melo:

      "Se eu não posso mudar um acontecimento, se não posso mudar a vida,então que ela me modifique".

      Só penso que a mudança não precisa ser pela dor...mas ser pela inteligência e pelo amor...

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